A felicidade e o bem-estar são pilares da boa gestão pública

A felicidade e o bem-estar são pilares da boa gestão pública

por Adriano Macedo

O mundo parece viver um divórcio entre a política, a gestão pública e a cidadania. Você parou para pensar que a corrupção é o buraco negro da cidadania e uma das principais razões para a infelicidade coletiva? Que as políticas públicas não enxergam o cidadão como um ser humano integral? Que grande parte dos habitantes do planeta está infeliz? Que a infelicidade é perpetuada pela sociedade excludente? Que não há felicidade e bem-estar com exclusão? Prefeitos, gestores públicos, academia e especialistas de empresas públicas e privadas da Argentina, Costa Rica, Colômbia, do Chile, Equador e México não só pararam durante três dias para refletir estas questões, como para ouvir, compartilhar experiências, práticas e metodologias que vão além dos conceitos de desenvolvimento sustentável e de cidades inteligentes.

Isso ocorreu no Encontro Internacional de Municípios pela Felicidade e o Bem-Estar, na pequena Quillota, no Chile. Ali, o médico Luis Mellia está prefeito há 25 anos. O segredo para a longevidade política? Afeto na gestão pública e a busca dos pilares da felicidade, que dependem da “convivência humana”. Para ele, há uma relação direta entre felicidade e participação cidadã. Embora diagnostique que há um “problema de confiança, sintonia e governabilidade” na administração das cidades, ele compartilha a visão de que o ser humano deve ser o foco principal em qualquer gestão, independente da ideologia partidária. Ele já foi convidado a estar no Brasil no II Encontro Internacional de Felicidade e Bem-Estar, que será promovido em 2018, cuja programação pretende introduzir o debate no Brasil sobre Municípios, Cidadania, Cidadãos e Felicidade.

Em duas décadas e meia de gestão pública, Luis Mella estimulou a implantação de várias iniciativas enfocando a afetividade com efetividade, entre elas a emblemática “Casa de Acogida Beatita Benavides”. A iniciativa começou em 2003 como uma casa de acolhimento a pacientes com câncer terminal, originários de famílias sem recursos financeiros, e virou política pública integrando esta proposta a outras duas iniciativas de inserção social, a primeira para estimular o primeiro emprego de jovens em formação nas áreas de saúde, psicologia e assistência social e que passam a atender aos pacientes. A outra surgiu a partir da criação de uma unidade de desintoxicação de álcool e drogas também voltada para jovens, que, durante 21 dias, vivenciam as perspectivas da vida e da morte no início da jornada para se livrar do vício. Para Mella, o gestor público precisa colocar-se em sintonia com a dor humana.

Em Curridabat, na Costa Rica, foi implantado o modelo dos Espaços de Dulzura, estratégia de gestão social, reconhecida pelo Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), que busca a felicidade das pessoas por meio da renovação dos espaços públicos e das infraestruturas dos bairros, proporcionando uma releitura do habitat, estimulando a convivência comunitária e integrando biodiversidade e produtividade. No município nasceu o projeto “Patrulla Peatonal”, uma patrulha constituída de funcionários públicos cadeirantes que verificam obstáculos nas calçadas. Tudo por meio da utilização de georreferenciamento para auxiliar políticas públicas que facilitem a mobilidade de pedestres e cadeirantes. Edgar Mora, prefeito de Curridabat, sugere aos gestores públicos se desprenderem de formalismos e trâmites burocráticos e se colocarem no lugar das pessoas para promoverem as transformações a partir das próprias localidades que administram. Para ele, o “partido político tem o monopólio para ascender ao poder”. E se as pessoas “não participam da política é por falta de confiança”. Resgatá-la passa pelo desenho de experiências, ouvindo as pessoas e construindo caminhos, conjuntamente, para orientar resultados que estimulem a confiança das relações, o bem-estar coletivo e a participação cidadã. “A confiança é uma obra pública”.

Esses exemplos parecem distantes do atual momento do Brasil, de polarização política, desconfiança e desinteresse das pessoas. No entanto, é preciso exercer genuinamente a cidadania superando a inércia da acomodação para ser o protagonista da própria vida. Cada um deve assumir as rédeas da autonomia, decidir e fazer escolhas acreditando na capacidade de mudar o rumo da história e do meio onde vive. A qualidade da democracia depende da participação ativa das pessoas, como por exemplo, de lideranças que puxam movimentos transformadores, baseados no empreendedorismo e na inovação social como modelo de negócio.

Para os que se encontram excluídos, quem está à frente da gestão pública tem a obrigação de tirar o cidadão da vulnerabilidade social e trazê-lo de volta à vida. No encontro de Quillotta, houve um consenso: para resgatar a confiança, os gestores públicos devem ampliar a capacidade de ler e ouvir a cidade, descentralizar o poder, eliminar o individualismo, abrir espaço para a valorização das pessoas e orientar a gestão pública para a felicidade e o bem-estar coletivo. Daniel Martínez Aldunate, presidente do Instituto del Bienestar do Chile, afirma que “tão valioso quanto o empreendimento é o desprendimento”.

No Brasil, a imprensa está desempenhando o seu papel para mostrar a sociedade que não queremos. Precisamos entender os ventos da mudança e o chamado para a transformação por meio do voto. E o gestor público precisa praticar genuinamente virtudes como a bondade, a generosidade e a justiça, traduzidas por comportamentos nos quais os interesses e sentimentos pessoais não influenciem as decisões. Essa é a condição para a busca da felicidade e do bem-estar da sociedade. A esta maneira de ser e de agir, baseada na equidade e na integridade, a liderança pública deve estar orientada, mais do que nunca, para o desenvolvimento humano e social, com honestidade, transparência, respeito, dignidade e exemplaridade no trato das pessoas e da coisa pública.

Sobre Adriano Macedo:

Jornalista e escritor, pós-graduado em Gestão de Pessoas pela Fundação Dom Cabral. Conselheiro e curador do Núcleo de Estudos Avançados para a Felicidade no Instituto Movimento pela Felicidade. Executivo de Comunicação da ArcelorMittal Brasil.

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